BRM 16v para Dodge Polara: A História de um Motor de Competição Esquecido
Desenvolvido para o Hillman Avenger, que no Brasil se tornaria o Dodge Polara, o ambicioso motor BRM 16v prometia revolucionar as pistas na década de 1970, mas falhou em um detalhe crucial.
No universo automotivo, algumas inovações nascem com a promessa de transformar o cenário, mas acabam relegadas ao esquecimento por detalhes técnicos inesperados. É o caso do motor BRM 16v, um projeto audacioso que, apesar de ter sido concebido para equipar o Dodge Polara brasileiro – ou, mais precisamente, sua matriz britânica, o Hillman Avenger –, teve uma trajetória complexa e, em grande parte, frustrada nas pistas de competição da década de 1970.
Table Of Content
- As Origens Britânicas e o DNA do Polara: O Hillman Avenger
- A Audaciosa Proposta da BRM: O Cabeçote 16v
- Os Desafios Técnicos e o Ostracismo
- Do Ostracismo à Redescoberta: O Legado de Peter Jones
- O que sabemos sobre o Motor BRM 16v para o Avenger
- Perguntas frequentes
- Qual a relação entre o Hillman Avenger e o Dodge Polara?
- Por que o motor BRM 16v não teve sucesso nas competições?
- Quem foi Peter Jones e qual sua importância para a história do motor BRM 16v?
- Qual motor levou o Sunbeam ao Campeonato Mundial de Rally de 1980?
A saga desse propulsor de alto desempenho é um mergulho fascinante na engenharia automotiva da época, nas rivalidades do automobilismo e na dedicação de entusiastas que, décadas depois, resgataram sua história. O motor BRM 16v foi pensado para o Dodge Polara, que, por sua vez, tinha suas raízes no Hillman Avenger, um veículo britânico que deixou sua marca tanto nas ruas quanto nas pistas de corrida.
As Origens Britânicas e o DNA do Polara: O Hillman Avenger
Para entender o motor BRM 16v, é fundamental conhecer o carro para o qual ele foi desenvolvido: o Hillman Avenger. Nascido na Inglaterra para ser um competidor direto do popular Ford Escort, o Avenger foi fabricado pela Hillman, uma marca então parte do Grupo Rootes, que viria a ser adquirido pela Chrysler. O nome original do carro, Avenger, já trazia consigo a conotação de um veículo pronto para o desafio, e ele sucedeu o respeitável Hillman Minx, buscando modernidade e um apelo mais esportivo.
O departamento de engenharia da Chrysler em Coventry, cidade que hoje abriga o quartel-general da Jaguar Land Rover, foi o berço da ideia que deu origem ao Avenger. Este centro de engenharia desempenhou um papel crucial no desenvolvimento de veículos que combinavam a robustez americana com a agilidade europeia. O Avenger foi projetado para ser versátil, oferecendo desde versões de quatro portas, ideais para famílias, até uma prática perua, expandindo seu alcance no mercado europeu.
Sob o capô, os motores do Avenger na Europa variavam entre 1250 cc e 1600 cc, oferecendo um bom equilíbrio entre desempenho e economia para a época. Embora a maioria das versões fosse equipada com câmbios manuais, uma caixa automática fornecida pela BorgWarner também estava disponível, conferindo um toque de sofisticação e conforto ao modelo. Essa flexibilidade ajudou o Avenger a conquistar diversos mercados, com destaque para a Argentina.
No país vizinho, o Avenger, rebatizado de Dodge 1500 e posteriormente de Volkswagen 1500, tornou-se um verdadeiro fenômeno de vendas. Sua durabilidade e desempenho o transformaram em um grande campeão da categoria TC2000, uma das mais importantes competições automobilísticas da Argentina. Essa linhagem de sucesso em competições na América do Sul e o nome Dodge foram a ponte para o Brasil, onde o modelo foi lançado como Dodge Polara, consolidando sua presença também em nosso mercado.
A vocação esportiva do Avenger não se limitou à América do Sul. Na Europa, ele também brilhou nas competições, incomodando seriamente o Ford Escort e suas versões mais potentes, incluindo o famoso Escort com motor Lotus Twin Cam. Essa rivalidade nas pistas era intensa e impulsionava as fabricantes a buscar constantemente inovações e melhorias em seus motores e chassis. A Ford, por exemplo, chegou a pedir à Cosworth um novo motor de competição para manter sua hegemonia, demonstrando o nível da disputa.
A Audaciosa Proposta da BRM: O Cabeçote 16v
É nesse cenário de intensa competição que entra a British Racing Motors (BRM), uma arquirrival da Lotus nas pistas de corrida e uma das mais respeitadas casas de engenharia de competição da Inglaterra. A BRM, sempre em busca de vantagem técnica, percebeu o potencial do motor do Avenger, que, em sua configuração original, era um OHV (Overhead Valve), ou seja, com válvulas no cabeçote acionadas por varetas e um comando no bloco.
Em 1974, a BRM decidiu ir além e desenvolveu um cabeçote de alumínio de fluxo cruzado com duplo comando de válvulas (DOHC) e 16v para o motor do Avenger. Este projeto era ambicioso e tecnicamente avançado para a época. Um cabeçote de fluxo cruzado permite uma melhor respiração do motor, com a admissão de um lado e o escape do outro, otimizando o fluxo de gases e, consequentemente, a potência.
A grande sacada da BRM foi criar um cabeçote que fosse “plug and play” no motor Avenger. Isso significava que ele poderia ser montado no bloco original do Avenger com relativamente poucas modificações estruturais. No entanto, para acionar os dois comandos de válvulas no novo cabeçote, a corrente de comando original precisou ser modificada. O eixo do comando original, que ficava no bloco, foi substituído por um eixo intermediário, conhecido como jackshaft, que transmitia o movimento para uma corrente de fileira única, responsável por acionar os dois eixos de comando no cabeçote.
Essa solução parecia promissora, oferecendo um aumento significativo na eficiência volumétrica e, por consequência, na potência do motor. O cabeçote 16v da BRM prometia transformar o já capaz motor do Avenger em uma usina de força ainda mais competitiva. A ideia era clara: desafiar os rivais com uma tecnologia de ponta, elevando o desempenho do Avenger a um novo patamar nas pistas.
Os Desafios Técnicos e o Ostracismo
Apesar da genialidade do projeto, a realidade das corridas impôs seus próprios desafios. O motor Avenger BRM 16v, embora tecnicamente avançado, não obteve o sucesso esperado devido a um problema crucial: a falta de confiabilidade. O calcanhar de Aquiles estava no sistema de acionamento do comando de válvulas.
A BRM optou por uma transmissão por corrente convencional para acionar os comandos duplos no cabeçote. O problema foi descoberto durante rigorosos testes de resistência de 100 horas, um padrão da indústria para garantir a durabilidade de componentes de competição. Nestes testes, os engenheiros identificaram falhas constantes em um mecanismo de tensionamento automático da corrente. Esse componente, vital para manter a tensão correta da corrente e o sincronismo do motor, não resistia às condições extremas de uso, levando a quebras e perda de desempenho.
A confiabilidade é um fator inegociável no automobilismo de alto nível. Um motor pode ser extremamente potente, mas se não conseguir completar uma corrida, seu potencial é inútil. Infelizmente, a falha persistente no tensionador da corrente condenou o projeto do motor BRM 16v ao ostracismo. Ele não conseguiu se estabelecer como uma opção viável para as equipes de corrida, e a BRM não viu seus esforços se traduzirem em vitórias consistentes com essa configuração.
Paradoxalmente, o Grupo Rootes, proprietário da Hillman e mais tarde sob o guarda-chuva da Chrysler, só alcançaria o sucesso nas competições de rali em 1980, mas com outro projeto. O Chrysler Avenger Mk2, mais conhecido como Sunbeam, foi o carro que finalmente atingiu os objetivos da Chrysler em relação às competições. O Lotus Sunbeam, uma versão de alta performance, conquistou o Campeonato Mundial de Rally de 1980, com o lendário Henri Toivonen ao volante. Este carro utilizava um motor Slant Four de 2.3L e 16v, uma configuração diferente daquela proposta pela BRM, mas que provou ser robusta e vitoriosa.
Do Ostracismo à Redescoberta: O Legado de Peter Jones
Por décadas, o motor BRM 16v para o Avenger permaneceu como uma nota de rodapé na história do automobilismo, uma ideia brilhante que não se concretizou. No entanto, a paixão pela engenharia automotiva e pela história das corridas garantiu que esse projeto não fosse completamente esquecido. Em 2004, Douglas Anderson, um entusiasta e pesquisador, postou informações valiosas sobre o motor 1600 BRM do Avenger em sua página pessoal, reacendendo o interesse na comunidade.
Essa postagem revelou que um amigo de Douglas, chamado Jeffrey, possuía um exemplar completo do motor 1600 BRM do Avenger. A descoberta foi um marco, pois representava a chance de estudar e entender o projeto original. Posteriormente, esse motor foi vendido a outro entusiasta de Avengers, que tinha o objetivo de montar uma réplica de rally, buscando a autenticidade e o desempenho que o motor BRM prometia.
O resgate mais detalhado das informações sobre o motor BRM, no entanto, deve-se a Peter Jones, da Jondel Race Engines. Com mais de 40 anos de experiência na construção de motores de competição, a Jondel é uma referência no setor, com um histórico que inclui trabalhos em veículos icônicos como Chevette HSR, Avengers, Escorts, BMW M3 e Porsche 911. A profundidade de seu conhecimento e a paixão pela engenharia mecânica foram cruciais para essa redescoberta.
Peter Jones obteve o cabeçote BRM original e, o que é ainda mais valioso, os desenhos técnicos completos do projeto. Em uma entrevista ao site Race Engine Technology, Jones compartilhou seus insights, destacando a qualidade intrínseca do motor do Avenger. Ele comentou que, em sua opinião técnica, o motor Avenger era um projeto superior ao famoso Kent Crossflow da Ford, um motor amplamente utilizado em competições e veículos de rua.
A superioridade do motor Avenger, segundo Jones, residia em detalhes de design como as varetas de acionamento mais curtas e as válvulas maiores, que contribuíam para uma melhor eficiência mecânica e fluxo de gases. Essas características, combinadas com o cabeçote 16v da BRM, teriam o potencial de criar um motor de altíssimo desempenho. No entanto, a história mostrou que mesmo um bom projeto de base e uma inovação audaciosa podem ser comprometidos por falhas em componentes críticos, como o tensionador da corrente.
A contribuição de Peter Jones e da Jondel Race Engines é inestimável. Ao resgatar e documentar esses detalhes técnicos, eles não apenas preservaram uma parte importante da história do automobilismo, mas também ofereceram lições valiosas sobre os desafios e as complexidades da engenharia de motores de competição. O motor BRM 16v para o Avenger, embora não tenha alcançado a glória nas pistas na década de 1970, hoje serve como um testemunho da busca incessante por inovação e da importância da confiabilidade em qualquer projeto automotivo.
O que sabemos sobre o Motor BRM 16v para o Avenger
- O motor BRM 16v foi desenvolvido para o Dodge Polara, tendo como base o Hillman Avenger.
- O departamento de engenharia da Chrysler em Coventry (atual QG da Jaguar Land Rover) desenvolveu a ideia original do Avenger.
- O Avenger, fabricado pela Hillman, era conhecido originalmente como Avenger.
- Seu motor na Europa variava de 1250 cc a 1600 cc.
- Existiram versões de quatro portas e perua do Avenger.
- O Avenger podia ter caixa automática BorgWarner.
- Foi um sucesso de vendas na Argentina e grande campeão da TC2000.
- Nasceu para competir com o Ford Escort e suceder o Hillman Minx.
- A BRM, arquirrival da Lotus, desenvolveu o cabeçote 16v.
- Em 1974, a BRM criou um cabeçote de alumínio com fluxo cruzado duplo comando 16v.
- O cabeçote BRM era “plug and play” no motor Avenger, com modificações na corrente de comando.
- O motor Avenger era OHV em sua configuração original.
- O motor Avenger BRM 16v não obteve sucesso devido à falta de confiabilidade.
- A falha foi identificada em testes de resistência de 100 horas, devido a um mecanismo de tensionamento automático da corrente que falhava constantemente.
- O eixo do comando original foi substituído por um eixo intermediário (jackshaft) e uma corrente de fileira única acionava os dois eixos de comando no cabeçote BRM.
- A Chrysler desenvolveu o Avenger Mk2, conhecido como Sunbeam, que foi campeão com o motor Slant Four de 2.3L e 16v no Campeonato Mundial de Rally de 1980, com Henri Toivonen.
- Em 2004, Douglas Anderson postou sobre o motor 1600 BRM do Avenger, que Jeffrey possuía e vendeu a um entusiasta.
- Peter Jones, da Jondel Race Engines (com mais de 40 anos de experiência), resgatou informações detalhadas, obtendo o cabeçote e os desenhos técnicos.
- Jones considera o motor Avenger um projeto melhor que o Kent Crossflow, devido às varetas do comando mais curtas e válvulas maiores.
Perguntas frequentes
Qual a relação entre o Hillman Avenger e o Dodge Polara?
O Dodge Polara vendido no Brasil era a versão local do Hillman Avenger britânico, que por sua vez foi desenvolvido pela Chrysler em Coventry, Inglaterra, e fabricado pela Hillman.
Por que o motor BRM 16v não teve sucesso nas competições?
O motor BRM 16v, apesar de tecnicamente avançado, falhou devido à falta de confiabilidade de um mecanismo de tensionamento automático da corrente, que não resistiu aos testes de resistência e causava falhas constantes.
Quem foi Peter Jones e qual sua importância para a história do motor BRM 16v?
Peter Jones é o fundador da Jondel Race Engines, uma empresa com mais de 40 anos de experiência em motores de competição. Ele foi fundamental para resgatar os desenhos técnicos e um exemplar do cabeçote BRM 16v, detalhando sua história e as razões de seu insucesso.
Qual motor levou o Sunbeam ao Campeonato Mundial de Rally de 1980?
O Lotus Sunbeam, que venceu o Campeonato Mundial de Rally de 1980 com Henri Toivonen, utilizava um motor Slant Four de 2.3L e 16v, uma unidade diferente do projeto da BRM para o Avenger.
A história do motor BRM 16v para o Avenger, e consequentemente para o Dodge Polara em nosso contexto, é um lembrete vívido de que a inovação na engenharia automotiva é um caminho repleto de desafios. A busca pela performance máxima, especialmente em competições, exige não apenas ideias brilhantes, mas também uma execução impecável e, acima de tudo, confiabilidade inabalável. O projeto da BRM, embora não tenha alcançado a glória que prometia, representa um capítulo importante na história da engenharia britânica e na evolução dos motores de alto desempenho. Graças ao trabalho de entusiastas como Douglas Anderson e, principalmente, à dedicação de especialistas como Peter Jones, esse pedaço da memória automotiva foi resgatado, permitindo que as novas gerações compreendam a complexidade e a paixão envolvidas na criação de máquinas que buscam a vitória.
Fonte: Flatout (flatout.com.br)
Fonte: Flatout (flatout.com.br)
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