O Câmbio Genial da VW no Marcas e Pilotos de 1984
Em 1984, uma brecha no regulamento e a genialidade da engenharia da Volkswagen deram origem a um câmbio único para o Gol, que mudou o jogo no Brasileiro de Marcas.
O ano era 1984. O automobilismo brasileiro fervilhava com a promessa de um novo e grandioso campeonato: o Brasileiro de Marcas e Pilotos. Pela primeira vez, as quatro grandes da indústria — Fiat, Ford, General Motors e Volkswagen — se comprometiam oficialmente com a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) a alinhar equipes de fábrica.
Table Of Content
- Nasce um Campeonato, Surge um Desafio
- A Brecha no Regulamento e a Caneta de Bob Sharp
- O Câmbio “4 de 5”: Engenharia em Favor da Performance
- O que sabemos
- Perguntas frequentes
- O câmbio da VW era ilegal?
- Por que o Gol de 1984 só tinha 4 marchas?
- Qual era a vantagem do câmbio modificado nas corridas?
- Quem foi Bob Sharp no automobilismo brasileiro?
A categoria prometia ser o espelho do sucesso europeu, com carros de produção modificados para as pistas. Mas, nos bastidores, uma batalha de inteligência e engenharia já estava sendo travada antes mesmo da primeira bandeira verde, em abril daquele ano, em Brasília. Foi nesse cenário que a Volkswagen, diante de uma aparente desvantagem técnica, executou uma das mais brilhantes manobras regulamentares da nossa história.
Nasce um Campeonato, Surge um Desafio
O compromisso das montadoras trouxe um peso inédito à competição. O formato, inspirado no Campeonato Europeu de Carros de Turismo, exigia que os carros fossem derivados dos modelos de rua, com alterações previstas em um regulamento técnico rígido, nos moldes do Grupo A da FIA.
Em janeiro de 1984, a CBA convocou uma reunião com as quatro fabricantes em sua sede no Rio de Janeiro. Sobre a mesa, estava uma minuta do regulamento. Para um olhar treinado, o documento era problemático: fraco, impreciso e com lacunas que poderiam comprometer a paridade técnica.
Para a Volkswagen, um artigo específico soou como um alarme. O texto determinava que o número de marchas do câmbio de competição deveria ser o mesmo do modelo original de produção. O carro escolhido pela VW era o Gol 1.6, um modelo robusto e ágil, mas que contava com apenas quatro marchas de fábrica. Seus principais rivais já dispunham de caixas de cinco velocidades, uma vantagem crucial em qualquer circuito.
A Brecha no Regulamento e a Caneta de Bob Sharp
A equipe da Volkswagen, na época sob a responsabilidade provisória de Ronaldo Berg, gerente nacional de assistência técnica, percebeu o problema. Foi então que Bob Sharp, que assumiria a supervisão de competições da marca em março daquele ano, entrou em cena.
Com sua vasta experiência, Sharp identificou a fragilidade do regulamento proposto e se ofereceu para redigir uma nova versão. Em apenas dois dias, ele entregou um documento técnico alinhado aos padrões internacionais da FIA. Mas o detalhe mais importante estava escondido na minuta original.
Um artigo, quase despercebido, permitia que uma fabricante homologasse um câmbio opcional. Esse câmbio deveria ter o mesmo número de marchas do original, mas poderia apresentar relações diferentes. Crucialmente, essa homologação não exigia uma produção mínima, bastando que a peça estivesse disponível como opcional no catálogo da marca. Era uma prática comum no regulamento do Grupo A da FIA, e foi a porta que a VW precisava.
O Câmbio “4 de 5”: Engenharia em Favor da Performance
A solução da engenharia da Volkswagen, baseada na brecha regulamentar, foi simplesmente genial. Em vez de desenvolver uma nova caixa de quatro marchas do zero, os engenheiros partiram de um câmbio de cinco. O que eles fizeram na Fábrica Anchieta foi uma adaptação engenhosa.
Dentro da carcaça de um câmbio de cinco marchas, eles removeram o engate da primeira velocidade. O seletor foi modificado para que, na posição da 1ª marcha na alavanca, o piloto na verdade engatasse a 2ª original. A posição da 2ª engatava a 3ª, a 3ª engatava a 4ª, e a 4ª engatava a 5ª. Na prática, a VW criou um câmbio de quatro marchas de relações próximas (close-ratio), utilizando as engrenagens mais robustas de uma caixa de cinco.
O resultado nas pistas era notável. A “primeira” marcha do Gol de corrida era, na verdade, a segunda marcha de um carro de rua, portanto, bastante longa. Nas largadas paradas, os carros da Volkswagen ficavam para trás, pois demoravam mais para ganhar velocidade. Contudo, essa desvantagem inicial se convertia em uma enorme vantagem competitiva.
Em curvas lentas e travadas, como o famoso “Bico de Pato” em Interlagos, os pilotos da VW podiam usar a primeira marcha. Com isso, o motor elástico do Gol saía da curva com muito mais força e rotação do que os concorrentes, que precisavam usar a segunda marcha. O prejuízo da largada era recuperado rapidamente, e não raro os Gols assumiam a ponta já na primeira volta.
Tudo foi feito de forma transparente e legal. As fichas de homologação são documentos públicos, e a estratégia estava perfeitamente amparada pelo regulamento que, ironicamente, a própria VW ajudou a aprimorar. Foi um caso clássico de como, no automobilismo, ler o regulamento com atenção é tão importante quanto construir um motor potente.
O que sabemos
- O Campeonato Brasileiro de Marcas e Pilotos de 1984 contou com o apoio oficial de VW, Fiat, Ford e GM.
- O regulamento inicial previa que os carros de corrida tivessem o mesmo número de marchas dos modelos de rua.
- O VW Gol 1.6, carro da equipe, possuía apenas quatro marchas de fábrica.
- Bob Sharp reescreveu o regulamento técnico da categoria em dois dias.
- Uma brecha no regulamento permitia a homologação de câmbios opcionais com relações diferentes, sem produção mínima.
- A VW criou um câmbio de 4 marchas usando como base uma caixa de 5, eliminando a 1ª velocidade original.
- Essa solução dava aos Gols uma vantagem decisiva em curvas de baixa velocidade, apesar de largadas mais lentas.
- A estratégia era completamente legal e estava de acordo com as normas da FIA para o Grupo A.
A jogada da Volkswagen em 1984 é mais do que uma curiosidade técnica. Ela representa a essência do esporte a motor: a busca incessante por uma vantagem competitiva dentro dos limites das regras. Foi uma demonstração de que a inteligência na interpretação do regulamento e a criatividade na engenharia podem superar limitações e definir o destino de um campeonato.
Perguntas frequentes
O câmbio da VW era ilegal?
Não. A solução era totalmente legal, amparada por um artigo do regulamento que permitia a homologação de um câmbio opcional com o mesmo número de marchas, mas com relações diferentes. Essa prática era comum nas regras do Grupo A da FIA.
Por que o Gol de 1984 só tinha 4 marchas?
Naquela época, câmbios de quatro marchas ainda eram comuns em carros de entrada e médios no mercado brasileiro. A transmissão de cinco velocidades estava começando a se popularizar, mas ainda não era padrão em toda a linha.
Qual era a vantagem do câmbio modificado nas corridas?
A principal vantagem era em curvas lentas. A primeira marcha (que era a segunda original) permitia que o motor trabalhasse em uma faixa de rotação ideal na saída de curva, garantindo mais torque e aceleração que os concorrentes, que eram forçados a usar uma segunda marcha mais longa.
Quem foi Bob Sharp no automobilismo brasileiro?
Bob Sharp é um engenheiro, piloto e jornalista automotivo de grande renome no Brasil. Ele foi piloto de testes da Ford e, posteriormente, supervisor de competições da Volkswagen, sendo uma figura chave no desenvolvimento de carros de corrida e na interpretação de regulamentos técnicos.
Fonte: Últimas do AE – Autoentusiastas (autoentusiastas.com.br)
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