AMC Gremlin: A Inusitada História do Carro Desenhado em um Saco de Enjoo
Conheça a história do subcompacto da American Motors Corporation, que nasceu de um rascunho em um voo e buscou enfrentar o domínio do Volkswagen Beetle nos EUA.
A ideia de “gremlins” causando problemas em aeronaves existe desde pelo menos a década de 1940. Pilotos da Royal Air Force, inclusive, culpavam essas criaturas místicas por falhas em voo durante a Segunda Guerra Mundial. Essa lenda até ganhou vida na televisão, com um gremlin aparecendo na asa do avião de William Shatner em um episódio de “Twilight Zone” em 1963. Curiosamente, foi também a bordo de um avião que o conceito de um carro icônico e controverso da American Motors Corporation (AMC) tomou forma.
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O Nascimento Inusitado de um Ícone
No outono de 1966, Dick Teague, vice-presidente de estilo da American Motors Corporation, estava em um voo. Sem os esboços de seu colega Bob Nixon em mãos, ele fez um desenho de um gremlin em um saco de enjoo. Esse rabisco se tornaria o embrião de um novo carro pequeno, projetado para competir com os veículos importados que ganhavam terreno nos Estados Unidos. A principal mira era o Volkswagen Beetle, que tinha um ímpeto de vendas crescente.
A apresentação do conceito para Gerry Meyers, chefe de desenvolvimento de produtos da AMC, também ocorreu em um voo. Meyers aprovou o carro imediatamente. Ele viu no desenho de Teague um potencial para um veículo de baixo custo de fabricação. Essa simplicidade e viabilidade econômica foram cruciais para o projeto avançar rapidamente.
A American Motors Corporation havia sido criada em 1954. Seu propósito era salvar a Nash-Kelvinator e a Hudson de um iminente colapso financeiro. A empresa já havia demonstrado criatividade ao transformar um chassi existente em dois modelos distintos: o Javelin e o AMX. Essa tática envolvia encurtar o comprimento de um chassi em cerca de 30 centímetros para criar o outro. Essa abordagem de otimização de custos foi replicada no desenvolvimento do novo subcompacto.
Uma Resposta Americana ao Fusca
A AMC utilizou o chassi do AMC Hornet, um modelo maior, como base para o Gremlin. O Hornet media pouco mais de 4,55 metros de comprimento, com um entre-eixos de 2,74 metros. O Gremlin, por sua vez, foi encurtado, resultando em aproximadamente 4,09 metros de comprimento e um entre-eixos de 2,44 metros. Essa redução de dimensões não só diminuiu o custo de desenvolvimento, como também o posicionou diretamente contra o Beetle.

Comparado ao Volkswagen Beetle de 1970, o Gremlin era ligeiramente maior. Ele tinha cerca de 5,8 centímetros a mais no comprimento total e um entre-eixos 3,8 centímetros maior. Contudo, a grande diferença residia sob o capô. O Gremlin podia ser equipado com um motor I6 (seis cilindros em linha) de 199 polegadas cúbicas (aproximadamente 3,2 litros). Este motor entregava 128 cavalos (cv) de potência bruta. Essa era uma potência robusta para um carro compacto da época.
Em contraste, o Beetle era movido por um motor de dois cilindros a menos, com quase 100 polegadas cúbicas (cerca de 1,6 litro) a menos de deslocamento. Sua potência era de 57 cv líquidos (SAE). Apesar da diferença significativa de potência, ambos os veículos eram capazes de alcançar um consumo de cerca de 25 mpg (aproximadamente 10,6 km/l). O Gremlin, lançado em 1970, chegou ao mercado com um preço inicial de US$ 1.879. Ajustado pela inflação, esse valor seria de aproximadamente US$ 15.580 hoje, posicionando-o como uma opção acessível no segmento de subcompactos.
Evolução e Curiosidades
Ao longo de sua produção, o Gremlin recebeu atualizações significativas. Em 1972, a AMC passou a oferecer freios a disco dianteiros como opcional, melhorando a segurança. No mesmo ano, a transmissão automática Torque Command foi introduzida. Curiosamente, essas transmissões eram na verdade unidades TorqueFlite, adquiridas da Chrysler e rebatizadas pela AMC. Essa prática era comum na indústria para otimizar custos e oferecer tecnologias consagradas.

Ainda em 1972, a AMC surpreendeu ao oferecer um motor V8 opcional para o Gremlin. Este motor de 304 polegadas cúbicas (cerca de 5,0 litros) entregava 245 libras-pé de torque (aproximadamente 33,8 kgfm) e 150 cv de potência líquida. Essa opção transformava o Gremlin em um pequeno esportivo, com desempenho impressionante para seu porte. No entanto, as ambições esportivas do modelo foram freadas pela crise do petróleo de 1973, que mudou o foco do mercado para a economia de combustível.
Em 1973, a AMC lançou um dos pacotes de aparência mais memoráveis da história automotiva: o Levi’s Edition. Este pacote inovador apresentava superfícies de assento semelhantes a jeans, com detalhes autênticos como botões de metal, costura cor de cobre e até uma etiqueta vermelha característica. Além disso, os bolsos das portas eram feitos de denim, replicando os bolsos de uma calça jeans. O Levi’s Gremlin foi um sucesso e permaneceu em linha até 1978, tornando-se um item de colecionador.
O Legado do Gremlin
Entre 1970 e o final de sua produção em 1978, a AMC vendeu um total de 674.492 unidades do Gremlin. O pico de vendas ocorreu em 1974, com 171.128 veículos comercializados, um testemunho de sua popularidade apesar do design polarizador. Em 1978, o Gremlin passou por uma reestilização e foi renomeado, marcando o fim de seu nome original, mas seu espírito distintivo continuou a viver em seu sucessor até 1983.
Ficha Técnica (AMC Gremlin 1970 – I6 padrão)
- Motor: Seis cilindros em linha (I6) de 199 polegadas cúbicas (aprox. 3.2L)
- Potência: 128 cv brutos
- Comprimento: Aprox. 4,09 metros (161 polegadas)
- Entre-eixos: Aprox. 2,44 metros (96 polegadas)
- Consumo: Cerca de 10,6 km/l (25 mpg)
- Preço inicial (1970): US$ 1.879
- Preço inicial (ajustado pela inflação): US$ 15.580
O que sabemos
- Gremlins são associados a problemas em aviões desde a década de 1940.
- Pilotos da Royal Air Force culparam Gremlins por falhas durante a Segunda Guerra Mundial.
- Um gremlin apareceu na asa do avião de William Shatner em “Twilight Zone” (1963).
- Dick Teague, vice-presidente de estilo da AMC, desenhou o conceito do Gremlin em um saco de enjoo em 1966.
- O desenho de Teague, feito em um voo, foi aprovado imediatamente por Gerry Meyers, chefe de desenvolvimento de produtos da AMC.
- A AMC foi formada em 1954 para salvar Nash-Kelvinator e Hudson.
- O Gremlin foi baseado no chassi do AMC Hornet, sendo mais curto (4,09m vs 4,55m).
- O Gremlin (1970) era ligeiramente maior que o VW Beetle (1970), mas muito mais potente (128 cv I6 vs 57 cv do Beetle).
- Ambos os carros tinham consumo de cerca de 25 mpg (10,6 km/l).
- A AMC vendeu 674.492 Gremlins entre 1970 e 1978, com pico em 1974 (171.128 unidades).
- O Gremlin inicial custava US$ 1.879 (US$ 15.580 ajustados pela inflação).
- Em 1972, o Gremlin ganhou freios a disco dianteiros opcionais e transmissão automática Torque Command (da Chrysler).
- Em 1972, um motor V8 opcional (304 polegadas cúbicas, 150 cv, 33,8 kgfm) foi introduzido.
- A crise do petróleo de 1973 impactou as pretensões esportivas do Gremlin.
- O pacote de aparência Levi’s Edition foi lançado em 1973 e vendido até 1978.
- O Gremlin foi reestilizado e renomeado em 1978, e seu “espírito” continuou até 1983.
O que ainda não foi confirmado
- Detalhes específicos sobre o voo de Frankfurt mencionado em algumas fontes.
- O nome exato do modelo do Volkswagen Beetle com o qual foi comparado no texto original.
- O nome exato do chassi pré-existente usado para o Javelin e AMX.
- O nome do modelo que sucedeu o Gremlin após a reestilização e renomeação em 1978.
O AMC Gremlin permanece como um dos carros mais distintos e divisivos da história automotiva americana. Sua origem incomum, a tentativa ousada de criar um subcompacto doméstico competitivo e suas soluções de design e marketing, como a edição Levi’s, garantem seu lugar como um ícone de criatividade e pragmatismo. Mesmo com um fim de linha em 1978, o Gremlin deixou uma marca indelével, provando que nem todo carro precisa ser convencional para ser memorável.
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